meu cigarro favorito saiu de fabricação há alguns meses e, desde então, tenho pensado sobre o fim de todas as coisas.
desde o ano novo já estava trabalhando em deixar de fumar, mas não esperava que forças exteriores tornassem esse processo tão abrupto, tomando de mim o que eu mais gostava — e sem aviso prévio.
eles poderiam ter alertado nos últimos lotes, junto com a mensagem de “VOCÊ MORRE”. talvez, assim, eu tivesse me preparado melhor.
conheci o winston exotic mint em uma festa que estava produzindo. enquanto eu colava plaquinhas de “beba água!” pelas paredes, minha amiga saiu para comprar cigarro. na época, fumávamos chesterfield azul terras brasileiras, mas pedi para que ela trouxesse um de sabor também. a festa ainda não havia começado, estávamos todos reunidos na portaria, papeando, quando ela chegou e mostrou a embalagem preta. winston? credo! acendeu um, fez careta e me passou. sabor estranho, diferente. fumei com receio, mas, na primeira tragada, senti um frescor que jamais esperaria de um cigarro. meu deus, citronela?!
fiquei obcecada, não existia nenhum outro igual. marlboro de menta??? exploda essa bomba! chesterfield roxo??? a maior aberração já criada pela humanidade. winston menta exótica??? cítrico, suave, refrescante, doce na medida certa, perfeito…
viciei todo meu ciclo social de fumantes nesse sabor e vivemos momentos lindos de fartura. era engraçado, cada pessoa descrevia seu exotismo de forma diferente: limão siciliano, skol beats, capim-cidreira, alvejante… cada um de nós levava três maços para os rolês, compartilhávamos cigarro como Jesus Cristo partilhava o pão, todas as amigas experimentaram. foram dias lindos, mas finitos.
o winston exotic mint nunca foi fácil de encontrar, eu conhecia apenas dois postos de gasolina que vendiam. o lado bom da dificuldade era que sempre havia estoque o suficiente para que empanturrássemos nossas bolsinhas — até um dia não haver mais.
só tem três maços no total? tudo bem, vê os três por favor.
e então, de uma hora para a outra, a fileira preta da prateleira atrás do caixa da loja de conveniência, onde meus olhos sempre repousavam enquanto eu aguardava pelo atendimento, simplesmente deixou de existir. aquele espaço que um dia foi tão familiar foi ocupado por cores das quais eu não me importava.
o winston menta exótica, sabe? winston de limão! não, não é o de menta… é aquele preto e amarelo. não tem? tudo bem…
vi um tiktok, uma vez, que falava sobre como a parte mais difícil de parar de fumar é perder uma companhia. quem vai me acompanhar nesse cafezinho? quem vai ocupar minhas mãos quando eu não souber o que fazer com elas? quem vai esperar o ônibus comigo ou só respirar um ar lá fora um pouco?
por um curto período, tentei fumar o maldito marlboro de menta, mas seu gosto era o mesmo de um chiclete trident que foi encontrado no escapamento de um carro. impossível.
aos poucos, entendi que nunca mais sentiria as nuances frescas que tanto gostava, que tudo que me restava era a memória de um sabor inexprimível e de todos os momentos que vivemos juntos. entendi que havia perdido minha companhia favorita e que tentar substituí-la era perda de tempo.
assim, parei de fumar.
um dia, meus amigos de são paulo encontraram onze maços, mas eu não fumei nenhum dos (provavelmente) últimos duzentos e vinte winston exotic mint da face da terra.
deixar de ser fumante não foi tão difícil, mas não é um hábito que pretendo retomar. todo mundo sabe como cigarro fede e faz mal. com exceção do winston menta exótica, é claro, com seu gosto de luz do sol, grama verde e bondade. por isso, caso meu cigarro favorito volte a ser fabricado, estarei aqui, de pulmões abertos para recebê-lo.